OCTA Fashion :: Entrevista com Andrey Batista

No dia 12 de novembro de 2016 aconteceu o 6º OCTA Fashion – Observatório de Cultura e Tendências Antecipadas -, o evento que apresenta as coleções finais dos alunos da última fase do curso de moda da UDESC, sediado em Florianópolis.

 

Teaser Octa Fashion no Vimeo

Os desfiles vêm possibilitando o contato direto com novas ideias e o universo da moda enquanto meio de intervenção social. E é nesse sentido que as coleções NON Binaire, do designer Andrey Batista, e ANYANWU, da designer Edilene Pimentel, surgem como forma de desconstruir conceitos tradicionais e de dar visibilidade para grupos que, antes, eram marginalizados pela própria moda. Com o grande tema “Sincronicidades”, inspirado na teoria do filósofo Carl Gustav Jung, cada um seguiu o seu caminho e o resultado foram duas coleções diferentes, mas igualmente interessantes.

 

 

Andrey3Foto por Guilherme Dimatos

A mistura de cores, peças e conceitos despertou a nossa curiosidade e nossa assessora de Marketing, Madu, entrevistou os dois formandos ex-ventórios para entendermos mais sobre as possibilidades criativas e como a Inventório ajudou na formação dos alunos da UDESC.

Hoje, trazemos nossa conversa com Andrey, que fez parte da Inventório de 2012.02 à 2014.01, onde foi trainee de Moda, assessor de Moda e diretor de Moda.

No site de sua coleção, uma citação de Judith Butler, filósofa cujos estudos centram-se na ideia de gênero, dá uma pista do tema escolhido por Andrey. O resultado foi uma coleção que explora a relação do vestir com o performar, a forma como as pessoas exprimem, através do vestuário, sua personalidade e a identidade de gênero além do feminino e masculino.

Andrey7Foto por Mynt Studio

M.: Como foi o seu processo criativo que direcionou a coleção? 

A.: O processo criativo se inicia na 6º fase com o TCC, momento no qual você decide qual assunto vai abordar e com base nele desenvolver o projeto que será apresentado para a banca para na 7º fase, desenvolver a coleção. A coleção parte do conceito da pesquisa feita no TCC. Eu queria trabalhar as identidades de gênero não binárias, assunto abordado na filosofia, antropologia, sociologia, mas difícil de encontrar bibliografias que trouxessem essa pauta na moda. É recente falar sobre homens não masculinizados e mulheres não feminizadas. A gente está um pouco longe de conseguir conversar plenamente de pessoas sem gênero, identidade de gênero mutável, transgênero e gênero fluido, por exemplo. A coleção foi orientada pela questão de como desenvolver uma coleção de moda para identidade de gênero não binárias e, principalmente, como confrontar essas barreiras binárias de gênero.  Parti do ideal das peças servirem para qualquer identidade de gênero. Então era importante que a peça não focasse em deixar a mulher com mais seio ou o homem mais forte, o andar mais viril ou mais sexy, a ideia era o contrário, desassociar o sexo do gênero na roupa. A partir dessa premissa, pensei em diferentes modelagens e no caso da minha coleção, a cor escolhida foi o preto porque é uma opção de cor que oscila melhor entre diferentes idades, gêneros, faixas etárias. Todo mundo tem uma peça preta, não determinando o público alvo através da cor e sim, deixando essa questão mais aberta.

M.: No que você acredita que a Inventório lhe auxiliou nessa etapa final do curso de Moda?

A.: A Inventório teve um papel fundamental, primeiro porque quando cheguei na sexta fase eu já tinha uma ideia mais prática da execução da coleção, por causa dos projetos que participei na Inv. Eu já tinha mais de noção de como organizar cronologicamente o processo, que é algo que no nosso curso as cadeiras por si não conseguem dar uma noção tão clara. A parte organizacional também me ajudou muito. A questão de como traduzir os conceitos que eu queria foi uma coisa que aprendi muito com o pessoal do gráfico do marketing e depois que fui diretor pude trazer para a moda também. O conceito pensado ser bem lido não pelo lado do criador, mas pelo lado do cliente ou do expectador no caso do OCTA, porque é muito mais complicado você fazer um conceito que qualquer pessoa consiga entender mesmo se for de um assunto que não compreende, do que um assunto abstrato e doido que você tem na sua cabeça que você precisa explicar em um textão pra fazer sentido.

M.: Qual sua sugestão para quem está cursando Moda e se preparando para o Octa?

A.: Minha sugestão é que se não teve a oportunidade de participar da Inventório ou de alguma atividade prática de execução de um projeto de coleção, facilita pesquisar muito antes e também ter disciplina na hora de se programar, pois pode acontecer de você se perder nas suas próprias tarefas. Durante a execução da coleção a gente faz coisas que nunca fez antes, nem sempre tem alguém para ajudar, além de você executar a tarefa vai ter que descobrir como fazer e se der errado, refazer. Então se você conseguir se organizar bem, tiver tempo hábil para fazer sua coleção, vai te ajudar muito. Vale fazer um cronograma e principalmente sair do óbvio, vá atrás de algo que te interesse, que faça realmente diferença para você, para abordar no seu TCC e depois traduzir para a sua coleção.

Foto-montagem-andreyFotos por Mynt Studio

A gente fica feliz de poder ver de perto os novos profissionais da moda cada vez mais engajados em construir um novo olhar sobre o que o simples ato de vestir pode significar. Em breve, mais com a entrevista da Edilene Pimentel! 🙂

Mais sobre o Andrey:

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Beijos, Maju