OCTA Fashion :: Entrevista com Edilene Pimentel

Dando continuidade às entrevistas feitas com os nossos ex-ventórios e já relembrando que o OCTA Fashion está cada vez mais próximo, hoje trazemos nosso bate-papo com a designer Edilene Pimentel, que fez parte da nossa empresa de 2013 a 2014, quando foi trainee e Diretora da antiga área Projetos de Moda.

Ela apresentou sua coleção de vestidos ANYANWU no OCTA Fashion 2016, junto ao Andrey Batista – veja a entrevista dele aqui – e aos outros 36 novos designers formados pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

Também com o grande tema “Sincronicidades”, Edilene segue um caminho diferente de Andrey e faz uma viagem pelo continente africano, partindo da Bahia, de onde são seus ascendentes. Com vestidos de festa fluidos, destinados, em suas próprias palavras, “as mulheres fortes, que vivem intensamente e buscam peças que unam cores intensas e sofisticação, sem medo de ousar”, a nossa querida ex-membro traz uma coleção ousada e que quebra paradigmas relacionados ao continente africano.

Confira agora como foi o seu processo de desenvolvimento de uma coleção e como a Inventório foi de grande importância para sua formação.

 

Edilene4Foto por Mynt Studio

M.: Como o tema “sincronicidades” foi representado por você na sua coleção?      

E.: No estudo teórico sobre o que é a sincronicidade para realizar o mapa de ideias, cheguei nos tópicos simbolismo e crenças, porque sincronicidade nada mais é do que fenômenos que acontecem por crenças, como pensamento positivo, mais ou menos como o The Secret. Então, eu foquei mais nos tópicos simbolismo e crenças. Com isso, eu cheguei na mitologia africana, pois eu já tinha o interesse de trabalhar com esse tema. Partindo disso, eu pesquisei mais a fundo, principalmente de onde vieram os escravos que ficaram na Bahia, dos quais eu tenho descendência. Muitos deles vieram da Nigéria, onde encontrei a tribo Igbo, que escolhi trabalhar. Nela, descobri a história mitológica da deusa do sol, a  Anyanwu, que a tribo crê ser muito poderosa. Então, resolvi trabalhar esse tema da deusa para representar a sincronicidade na minha coleção, que está através do simbolismo e das crenças humanas.       

Eu tive que estudar bastante a história da deusa e da tribo para conseguir representa-la em minhas estampas, já que havia escolhido trabalhar com essa técnica. Se você prestar atenção em algumas estampas que criei, algumas têm formato desconstruído de fênix, outras têm um sol com nuvens, um pouco mais explícito, que trabalhei indo mais para o continente africano: tem o verde e a mistura de cores. E também trabalhei em uma das estampas a arquitetura da tribo Igbo, eles têm bastante as portas trabalhadas, então peguei as ranhuras das portas, da pintura das máscaras de alguns rituais e passei para as minhas estampas.    

70fd9abd-488e-4c95-815a-5786c3b55539Foto por Guilherme Dimatos

M.: Como foi o seu processo criativo que direcionou a coleção?

E.: Meu processo criativo partiu primeiro da pesquisa teórica sobre sincronicidade. Depois, foquei no continente africano, em sua cultura, costumes e, principalmente, nas vestimentas da tribo que decidi trabalhar, que são bem diferentes do que estamos acostumados. Após isto, parti para a pesquisa da história mitológica da deusa Anyanwu, que a tribo representa com a fênix e o sol. Logo após,  fui para as pesquisas de referências para criar o trend board, o que não foi muito difícil, já que eu já sabia que gostaria de trabalhar com tema feminino e com festa. No final, minha coleção acabou puxando para uma linha “festa conceitual”.

Eu também queria fugir da ideia formada que as pessoas tem sobre o tema africano. Busquei das roupas estruturadas e do godê marcado. Na pesquisa de imagens direcionei para as formas e caimento que gostraia de trablhar, como a fluidez, que me ajudou a fugir desse conceito pré-formado da moda africana. A partir daí, começaram a surgir as criações, os esboços, os 125 croquis pedidos, sempre procurando coisas diferentes. Depois disso, selecionei os 25 finais.

Após todo esse desenvolvimento, fiz o teste de cores, que foi um pouco mais complicado, pois  tive que fazer o teste com o mix de estampas. No final, foram quase uns 150 testes para chegar realmente nos 25 que foram para o book de coleção

TecidosEstampas criadas por Edilene

No que você acredita que a Inventório lhe auxiliou nessa etapa final do curso de Moda?           

Na Inventório, fiquei um período como diretora, então eu tinha que ter uma organização que acabou me ajudando a criar a rotina de 5 esboços por dia, para conseguir acompanhar direito o meu cronograma – e mesmo assim ficou corrido. Além disso, a interdisciplinaridade que a gente encontra na Inventório me deu um suporte importante na área gráfica, me ajudando  muito na hora de desenvolver o layout do meu book.

Antes eu era muito perdida para manter a unidade estética, até para mexer em ferramentas como o Illustrator para fins de diagramação, que não temos tanto foco na faculdade. Então foi um dos pontos muito fortes.

Além disso, na Inventório, nós temos que buscar sempre novas métodos de pesquisas, para conseguir chegar ao produto que atenda as necessidades do cliente. Então, como eu entendia o que eu queria, consegui ter esse briefing bem feito no final, eu consegui pesquisar mais a fundo o que precisava e sair um pouco da caixa, ser mais criativa. Na área de moda e na empresa, nós temos que levar ideias diferentes para nossos clientes. Antes da Inventório eu apresentava coisas muito técnicas e comerciais, mas aprendi, inclusive com o Andrey a apresentar criações mais criativas e desenhar bons croquis (na época sabia fazer bons desenhos técnicos, mas meus croquis não eram de tanta qualidade). Aprendi, ainda, que precisamos nos conhecer o suficiente para entendermos nossos limites e saber o que conseguimos correr atrás para aprender ou não. Sem esse conhecimento, fica bem difícil chegar até o final de qualquer projeto

f75f8266-cce7-46d0-b82b-6d77398a628aTrend Board desenvolvido pela designer

M.: Qual sua sugestão para quem está cursando Moda e se preparando para o Octa?

E.: A sugestão que tenho é: faça algo que goste e não surte quando começar a odiar o seu trabalho. Tem um ponto em que, depois de ficar tanto tempo em cima do mesmo projeto, pois ficamos praticamente 3 semestres (um ano e meio) trabalhando nisso, você não aguenta mais ver, nem falar,  só quer que termine. Mas no final, quando chega o momento, são dois minutos que compensam tudo. É uma sensação maravilhosa. Então, não surtem no meio do processo. E se preparem financeiramente, porque dependendo dos materiais, modelagens e estampas propostas para a coleção, ela sai um pouquinho caro. Na verdade, moda é um curso caro, acredito que muitos tenham percebido, mas se você gosta mesmo da área, vale muito a pena. Se organizem direitinho e faça algo que goste que dará tudo certo!

Foto-montagem-Edilene

Encerramos aqui nosso ciclo de entrevistas com os novos designers de Moda que passaram pela Inventório.

A nossa equipe ficou contente ao perceber que um único tema pode trazer um universo de possibilidades e inspirações inesperadas.

Apoiados nisso, Andrey e Edilene optaram por um viés social que auxilia na desconstrução de diversos conceitos errôneos que ainda insistem em existir. Alguns relutam, mas é inegável que a moda tem a sua importância. Não é à toa que, muitas vezes, usamos a expressão “vestir a camisa”. Usar uma roupa reforça aquilo que você acredita e mostra para o mundo aquilo que ele precisa modificar para se tornar um lugar melhor. Esperamos que cada vez mais os nossos formandos possam, a partir do seu trabalho, ser protagonistas na transformação do futuro.

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Beijos, Maju

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