Moda e sustentabilidade :: Entrevista com Roberta Kremer

Consumo, indústria, produção, sustentabilidade. O que vem mudando a moda e a forma como nos relacionamos com os produtos que compramos? E porque vem mudando? É sobre isso que vamos discutir com a Roberta Kremer, designer e artesã, que esteve no último dia da Semana Inventório em uma parceria linda entre a gente e a Semana do Lixo Zero.

Com muita história, conhecimento e experiências compartilhadas, todos os participantes puderam entender o processo de tingimento natural com índigo e a importância de um novo pensamento sobre a moda e os processos que ela envolve.

Além da prática, não poderíamos ter deixado de lado a discussão sobre os impactos da indústria da moda e o que podemos fazer para alterar esta realidade.

Quer ficar ligado no que tem de mais atual na moda? Leia a entrevista e entenda porque o tingimento natural é tão valioso! 🙂


Tecido sendo tingido com índigo. Foto por Ale Magnere.

Fale um pouco sobre a história do índigo.

O índigo é o corante vegetal mais antigo da história têxtil, recente descoberta de indigotina em um tecido nos Andes Peruanos datado em 6.000 anos trouxe o título do tecido mais antigo do mundo para a América. O índigo esteve presente em diferentes culturas ancestrais e era naturalmente encontrado em toda a faixa tropical do planeta. A planta principal que fornece esse corante é a Indigofera que possui mais de 100 espécies, mas outras 200 plantas também possuem a indigotina, nome do corante índigo.

Como obter uma boa coloração com o índigo e quais os resultados a técnica pode dar ao aspecto dos tecidos?

O tingimento com índigo é particular, diferente da maioria dos corantes que liberam as moléculas tintórias na água por cocção, o índigo precisa de duas condições: o meio (água) alcalino e perda de oxigênio ou fermentação, para que se torne solúvel em água e se ligue as fibras do tecido. Um bom tingimento deve respeitar estas duas condições, senão o corante apenas se deposita no tecido e não resiste  às lavagens.

Processo do tingimento com índigo. Foto por Ale Magnere.

É fato que a sustentabilidade vem ganhando mais valor e se faz cada vez mais presente na vida dos indivíduos. Como as técnicas sustentáveis contribuem para uma mudança na relação do usuário com a roupa que ele usa?

A sustentabilidade deve estar presente em todas as nossas relações de consumo, principalmente com a moda que mexe tanto com a representatividade na sociedade, os processos artesanais e ancestrais nos mostram a dificuldade e o trabalho que demanda uma peça de roupa e isto mexe diretamente com o valor que damos a elas, algo indispensável para reverter o consumo irresponsável, o desperdício e a desvalorização da mão de obra nesta indústria que movimenta bilhões.

Como você vê a importância das técnicas de tingimento natural para o consumo de moda atualmente? Como elas vêm se destacando e como elas vão contribuir para um pensamento e consumo mais sustentáveis?

O tingimento natural trabalha justamente com este “valor” das roupas, quando questionamos todo o processo produtivo industrial e passamos a entender que uma peça de roupa muito barata pode ter roubado a infância de uma criança ou destruído uma nascente de rio, passamos a valorizar o difícil trabalho de extrair as cores naturais, o produto que passa por mãos justas, os produtos feitos artesanalmente. Esta economia colaborativa pode mudar toda a relação de consumo das próximas gerações. Além disso o tingimento natural nos aproxima e nos conecta com a verdadeira fonte de vida, engrandece o respeito pela natureza.

Na sua opinião, qual será a maior mudança nos processos produtivos da moda nos próximos anos?

Acredito que a moda precisará se adequar a estes novos ideais de consumo, precisa respeitar a natureza, o processo produtivo justo para poder ter o respeito do consumidor final. Também precisará se adequar a pequenas demandas locais, trabalhar junto com essa economia colaborativa através de produtos exclusivos, linhas direcionadas a certas regiões, colaboração com artistas, técnicas ancestrais, tudo que aproxime esta empresa dos seus consumidores, precisamos de conexões sensoriais e emocionais com as marcas que escolhemos, cada vez mais. O que consumimos é a principal ferramenta de mudança.

Tecido em processo de secagem. Foto por Ale Magnere.

De fato, a relação das pessoas com suas roupas e com as marcas que as produzem vem se alterando e quanto mais a gente puder contribuir na criação de um mundo mais ético e sustentável, melhor!

Para isso, repense e questione tudo o que está nas prateleiras e pronto para roubar seu coração.  Busque sempre pagar o preço justo. Investigue sobre as marcas e a maneira como elas produzem. Informe-se e use a criatividade para equilibrar o seu estilo de consumo. Esse pode ser o início de um mundo melhor.

Beijos,

Maju